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1 de junho de 2019

Dzongsar Khyentse Rinpoche - A não existência do samsara é o nirvana

Como Buda disse no Sutra Prajnaparamita, todos os fenômenos são como um sonho e uma ilusão; mesmo a iluminação é como um sonho e uma ilusão. E, se houver algo maior ou mais grandioso do que a iluminação, isso também será como um sonho e uma ilusão. Seu discípulo, o grande Nagarjuna, escreveu que o Senhor Buda não afirmou que após abandonar o samsara existe o nirvana. A não existência do samsara é o nirvana. Uma faca é afiada num processo em que duas coisas se exaurem: a pedra de amolar e o metal. Do mesmo modo, a iluminação é resultado da exaustão dos obscurecimentos e da exaustão dos antídotos dos obscurecimentos. Ao final, o caminho da iluminação terá de ser abandonado. Se você ainda se define como budista, ainda não é um buda.

fonte: "O que faz você ser budista?", Ed. Pensamento, 2008. Tradução de Manoel Vidal.

21 de abril de 2019

Gustavo Gitti - O outro nem quer você! Ele quer ser feliz e se iluminar!

Se vocês viverem o amor mesmo, não está conectado com uma pessoa. Não tem como estar conectado com uma pessoa. O amor é grande! Uma das coisas legais numa relação é você falar para a pessoa assim: "O jeito de eu te amar com o coração amplo é eu amar a todos. Porque se eu amar só você o meu coração fica estreito, daí nem você direito vai ter o amor que é o potencial do meu coração. Então para eu te amar, eu tenho que amar a todos, está bem? Se eu amar só você, eu vou amar com coração muito pequeno, então eu vou te amar muito mal. Para eu te amar bem, eu vou ter que amar todos."

A pessoa vai ter que entender que para você vir com toda atenção do mundo para ela, muito aberto, você não pode fechar para os outros. Porque se você fecha para os outros, você treina fechar, você chega para ela e está fechado. Então se ela quiser o melhor de você, o melhor amor de você, ela vai querer que você ame todos com esse amor. É muito legal.

Pergunta: Mas, via de regra, as pessoas não querem isso. A pessoa quer se sentir única, não quer que você ame a outra...

Gustavo Gitti: Não, ela quer ser feliz, na verdade. Ela acha que ela vai conseguir ser feliz sendo especial, ou tendo um comprovante seu. Mas na medida que ela ver que isso dá errado, várias e várias vezes, ela vai começar a questionar isso. Sua Santidade Dalai Lama diz o seguinte: "Todos os seres querem a felicidade e evitar o sofrimento. Essa é a versão Chenrezig. A versão Manjushri, de Dzongsar Khyenttse Rinpoche - todas tão perfeitas -, mas a versão Manjushri é: "Todos os seres querem a iluminação, no fundo."

Porque o que que é ser feliz? Então você pega esse desejo dos seres - se você levar até o fim, com sabedoria, isso é iluminação. Desfrutar do potencial, da natural felicidade, sukkha! Que a gente nem pensa mais em felicidade, é natural espaço, a felicidade não é nem uma questão mais. Então o que que é que os seres querem? Isso! Os seres querem ser iluminados. Então qualquer ação que você ajudar eles nesse caminho, mesmo se ele fizer birra ou não, em algum momento, não é que ele vai agradecer você, em algum momento, ele vai perceber que foi útil.

Então só de você chegar e manifestar esse exemplo diante dele, ele percebe que, para você ser a melhor pessoa ao lado dele, você não pode ser uma pessoa ruim para os outros. Você tem que ser a melhor pessoa para os outros. Mas quando você começa a ser a melhor pessoa para os outros, naturalmente ele não vai ser especial, ele basicamente está mais próximo. Só que ele começa a ser convidado para se alegrar por você. Daí você vai negar isso do outro? Na verdade, a felicidade dele vai vir disso! Não de você mimar ele! Então você quer que ele seja feliz, então você ajuda ele a ser feliz, que é o quê? Se alegrar por você! Então você não olha ele como alguém carente, dando nascimento inferior, você olha ele lá em cima!

(...)

Na verdade, o que ela quer mesmo é ser feliz, e como é que ela vai conseguir isso? Se iluminando. Se iluminar passa por se alegrar pela felicidade dos outros. A mente dela se expande.

Confiar que o outro, na verdade, quer se iluminar. Ele não quer alguém perto dele... Ele quer ser feliz. Ele não quer nem a gente! Você vai desperdiçar sua vida calculando quanto você tem que ficar perto de alguém? O outro nem quer você! Ele quer ser feliz e se iluminar! Você vai ser útil na medida que você apoiar isso. Se você ficar perto do outro e não apoiar isso, você está fazendo ele perder tempo. Por exemplo, se você alimentar a carência do outro, isso é horrível! Pode ser que pareça ser bom, porque o outro fica assim [próximo, vendido]... mas você tem que olhar a longo prazo: ele quer se iluminar, ele está longe de se iluminar, porque ele está sendo alimentado por você, e você está topando isso, alimentando a carência dele.

Não significa também que a gente não vai se aproximar dos seres, ou não vai em algum momento também alimentar um pouco, mas a gente vai fazer tudo isso visando a liberação dele. A gente tem um jogo longo com os seres. A gente também não quer seguir casado, não tem um jogo desse tipo, a gente quer se iluminar e a liberação de todos os seres. Então o nosso jogo com os seres é bem longo, é o mais longo que tem.

Por isso que a gente fica muito paciente. A pessoa vem e fala assim: "vocêêeeaahhhhh!!! [berro]" - você fica tranquilão... porque a gente vai se encontrar, para sempre! Então você fica super tranquilo, porque você não tem uma relação que acaba amanhã; o negócio é longo, é super longo. (...) Você nunca fecha as relações, com os seres todos.

Daí o casamento naturalmente vai se tornar mais uma dessas relações. Vocês não vão ter um estreitamento do tipo de achar que o casamento é uma relação especial. O casamento, basicamente, é morar junto, mais próximo, e só. E transar, ou qualquer coisa. Tem mais nada. O outro não é nada, você não é nada, nada foi consolidado, tem nada aqui de diferente. Então a gente tem que desromantizar a relação do casamento. Claro, socialmente a gente vai falar "estou casado", whatever. Mas a gente começa a olhar para os outros como mais um, mesmo. E olhar como mais um não significa diminuir o outro. Significa elevar todos os outros.

Por que que a gente abre o coração para um só? Não faz sentido. Mas não significa também transar com todos, porque também não faz sentido! E também nem tentar nem ser próximo de todos, porque naturalmente, pela questão cármica, não tem como a gente morar junto de todo mundo, tomar café da manhã com todo mundo, não tem! Então é tranquilo ter algumas pessoas mais próximas. Mas internamente você mantém equanimidade, uma sensação de sol, a gente brilha e irradia igualmente. Só que os seres podem fechar janelas, e também podem se aproximar e se distanciar. Mas nós não nos aproximamos, nem distanciamos e nem filtramos, nós irradiamos igualmente.

fonte: curso "Praticando o darma nas relações", #2, a partir de 1:00:49 - http://www.cebb.org.br/audio-do-curso-praticando-o-darma-nas-relacoes-florianopolis-gustavo-gitti/

19 de abril de 2019

Thich Nhat Hahn - O Nirvana é, antes de tudo, a remoção das percepções erradas

O Nirvana é, antes de tudo, a remoção das percepções erradas. E quando você remove percepções erradas, você remove o sofrimento.

Ao meditar profundamente, você descobre que mesmo ideias como ser e não-ser, nascimento e morte, ir e vir, são ideias erradas. Se você pode tocar a realidade em profundidade, você percebe que tal coisa, que significa a realidade suprema, está livre do nascimento, da morte, do vir, do ir, do ser, do não-ser. É por isso que o Nirvana é, antes de tudo, a remoção de noções, de ideias, que servem de base para o mal-entendido e o sofrimento.

Se você tem medo da morte, do nada, do não-ser, é porque você tem percepções erradas sobre a morte e sobre o não-ser. O cientista francês Lavoisier disse que "não há nascimento, não há morte". Ele apenas observou a realidade ao seu redor e chegou à conclusão de que "rien ne se crée, rien ne se perd."

(...)

O Buda não morreu. O Buda só continuou com sua sanga, pelo seu dharma, e você pode tocar o Buda no aqui e no agora. E é por isso que ideias como nascer, morrer, ir e vir, ser e não ser, devem ser removidas pela prática de olhar profundamente. E quando você pode remover essas noções, você é livre e não tem medo. E o não-medo é o verdadeiro fundamento da grande felicidade. Como até agora o medo existe em seu coração, a felicidade não pode ser perfeita.

E é por isso que o Nirvana não é algo que você recebe no futuro. Nirvana é a capacidade de remover as noções erradas, percepções erradas, que é a prática da liberdade. O nirvana pode ser traduzido como liberdade: liberdade das visões. E no budismo, todas as visões são visões erradas. Quando você entra em contato com a realidade, você não tem mais visões. Você tem sabedoria. Você tem um encontro direto com a realidade e isso não é mais chamado de visão.

fonte: "Budismo, por Thich Nhat Hanh" - https://www.youtube.com/watch?v=moUVnxmek1Q

13 de abril de 2019

Sua Santidade, o Dalai Lama - Decidindo alcançar a iluminação

DECIDINDO ALCANÇAR A ILUMINAÇÃO

Uma vez que você tenha chegado ao ponto de querer, profundamente, fazer o possível para acabar com o sofrimento e suas causas e ajudar os outros seres vivos a conquistar a felicidade, reflita sobre como isso pode ser obtido. Isto só pode acontecer se as outras pessoas também entenderem como este processo funciona e, então, colocá-lo em prática. Assim, seu comprometimento com o bem-estar dos outros seres pode ser mais bem suportado ao ensiná-los como praticar e quais comportamentos abandonar. Dessa forma, eles também terão o poder de manter a felicidade e evitar o sofrimento. Não há outra maneira. Para isso acontecer, você deve conhecer a disposição íntima e os interesses dos outros, assim como o que ensinar para eles.

Então, para ajudar os outros, você deve estar totalmente preparado. Em que consiste essa preparação? Você deve remover todos os obstáculos de sua própria mente para saber tudo o que deve ser conhecido. O que os praticantes compassivos - chamados Bhodissatvas - realmente desejam não é apenas superar as obstruções que impedem sua própria libertação. Eles querem limpar o caminho para a onisciência, de modo que possam ter acesso às disposições dos outros e escolher quais técnicas os ajudarão. Se fosse apenas uma questão de escolha, os Bodhissatvas escolheriam primeiro remover as obstruções. Mas as emoções aflitivas, que nos mantêm aprisionados na existência cíclica, estabelecem as obstruções para a onisciência. Essas obstruções são predisposições da mente que fazem com que os fenômenos aparentem ter existência inerente. Sem primeiro sobrepor a principal emoção aflitiva - a ignorância que acredita na existência inerente -, você não poderá sobrepor as predisposições postas na mente pela ignorância. Pela purificação das obstruções aflitivas, assim como pelas predisposições estabelecidas por elas, você pode transformar sua própria consciência na consciência onisciente de um Buda, totalmente iluminada.

Em resumo, para trazer a felicidade completa para os outros, é necessário que você atinja a iluminação. Quando você entender isso e resolver buscar a iluminação pensando nos outros, é o que se chama de intenção altruísta para a iluminação, ou bodhichitta. Você pode gerar o poder do bodhichitta em você, seguindo a prática de Shantideva de ver a si mesmo e aos outros como igualmente desejosos da felicidade e, com isso, mudar a ênfase de seus objetivos para os de infinitas pessoas.

Há três diferentes estilos de atitudes altruístas, encontradas em três tipos de pessoas. O primeiro tipo é como um monarca, desejando atingir antes o estágio de Buda para poder ajudar os outros seres. A segunda é como um barqueiro, desejano chegar a outra margem junto com todos os outros seres. A última é como um pastor, desejando que todos os outros atinjam o estado de Buda primeiro, antes mesmo da iluminação do próprio pastor.

As duas últimas analogias apenas indicam a atitude compassiva de alguns tipos de praticantes. Na verdade não há nenhum caso como o do barqueiro, de todos conseguirem a iluminação simultaneamente, nem como o pastor, em que os outros conseguem primeiro. Em vez destes, a iluminação sempre chega em primeiro lugar, como um monarca, já que os Bodhisattvas às vezes decidem se tornar iluminados os mais rápido possível, para poder ajudar os outros melhor e em maior número.

Com o sábio tibetano no Sakya Pandita diz em seu 'Diferenciação dos três votos', Bodhisattvas têm dois tipos de desejos em orações, os que podem e os que não podem ser realizados. No 'Guia do modo de vida do Bodhissatva', de Shantideva, há muitos exemplos de desejos que, na verdade, não podem ser realizados, mas eles existem para fortalecer a vontade e a determinação. Por exemplo, a prática de transferir nossa felicidade e receber o ódio dos outros não é possível literalmente, a não ser, talvez, para pequenos sofrimentos. Mas esta prática, apesar de irreal, tem como objetivo aumentar a coragem de compaixão. As analogias do barqueiro e do pastor servem para indicar como é poderoso o desejo de Bodhisattvas de ajudar os outros.

Deixe-me exemplificar esta dedicação em um nível profundo de experiência. Havia um praticante erudito no monastério Drashikyil, em uma província no nordeste do Tibete chamado Amdo. Em 1950, quando os chineses comunistas invadiram e prenderam mil dos três mil monges do monastério, cem foram escolhidos para serem mortos. Ele era um deles. Ao ser levado para o local da execução, pouco antes de ser atingido por um tiro, ele orou:

Que todas as ações, obstruções e sofrimentos ruins de todos os seres
Sejam transferidos para mim, sem exceção, neste momento
E que minha felicidade e mérito sejam enviados para todos os seres
Que todas as criaturas sejam imbuídas desta felicidade


Apenas alguns instantes antes de ser morto, ele teve a presença espiritual de lembrar da prática de tomar para si o sofrimento de todos os seres e lhes dar sua própria felicidade! É muito fácil falar sobre esta prática quando as coisas estão bem, mas ele foi capaz de realizá-la no momento mais difícil. É uma indicação clara da realização espiritual adquirida de uma longa prática.

fonte: "Como praticar", Ed. Rocco, 2003.

8 de abril de 2019

Shunryu Suzuki - Experiência da mente grande, iluminação, não-cognitivo, não-dualidade, confiança

O mestre Dogen disse que alguns podem atingir a iluminação e outros não. Essa é uma questão que muito me interessa. Embora todos sigamos a mesma prática fundamental e a realizemos da mesma forma, alguns atingirão a iluminação e outros não. Isto significa que, mesmo que não tenhamos qualquer experiência de iluminação, se sentarmos de maneira adequada, com atitude e compreensão da prática corretas, isto é Zen. O ponto principal é praticar com seriedade, e a atitude mais importante é compreender e ter confiança na mente grande.

Dizemos "mente grande" ou "mente pequena" ou "mente de Buda" ou "mente Zen", e essas palavras significam algo, vocês sabem, mas algo que não podemos e não devemos tentar entender em termos de experiência. Falamos sobre a experiência de iluminação, mas não é uma experiência que possa ser formulada em termos de bom ou mau, tempo ou espaço, passado ou futuro. É uma experiência ou consciência que está além dessas distinções e sentimentos. Por isso não devemos perguntar: "O que é experiência de iluminação?" Tal pergunta significa que você não sabe o que é a experiência Zen. A iluminação não pode ser indagada pelo modo ordinário de pensar. Quando você não estiver envolvido nesse modo de pensar, terá alguma chance de entender o que é a experiência Zen.

A mente grande na qual devemos confiar não é algo que se possa experimentar objetivamente. É algo que está sempre com você, sempre ao seu lado. Seus olhos estão junto de você, por isso não os pode ver e seus olhos não podem ver a si próprios. Os olhos só vêm as coisas externas, os objetos. Se você reflete sobre si mesmo, este si mesmo já não é o verdadeiro si mesmo. Você não pode projetar a si mesmo como alguma coisa objetiva para pensar a respeito. A mente que está sempre a seu lado não é apenas a sua mente, é a mente universal, sempre a mesma e não distinta de qualquer outra mente. É a mente Zen. É a grande, grande mente. Está em qualquer coisa que se vê. Sua mente verdadeira está sempre com tudo quanto se vê. Embora você não conheça sua própria mente, ela está ali - no exato momento que você vê alguma coisa, ali está ela. Isto é muito interessante. Sua mente está sempre com as coisas que você observa. Assim, essa mente é ao mesmo tempo todas as coisas.

A mente verdadeira é a mente observadora. Não se pode dizer: "Isto sou eu mesmo, minha mente pequena ou minha mente limitada, e aquilo é a mente grande". Isto é limitar-se a si mesmo, restringir sua verdadeira mente, fazer de sua mente um objeto. Bodhidharma disse: "Para ver um peixe você tem de observar a água". Na verdade quando você vê a água, você vê o verdadeiro peixe. Antes de ver a natureza de Buda você tem que observar a própria mente. Quando você vê a água ali está a verdadeira natureza. A verdadeira natureza é observar a água. Quando você diz: "Meu zazen é muito pobre", eis aí a verdadeira natureza, mas você, tolamente, não a percebe. Você a ignora propositalmente. Há uma imensa importância no "eu" com o qual você observa sua mente. Este eu não é o "grande eu"; é o "eu" incessantemente ativo, sempre nadando, sempre voando pelo vasto espaço com suas asas. Por asas quero dizer pensamento e atividade. O vasto céu é o lar, meu lar. Não há pássaro, nem ar. Quando o peixe nada, a água e o peixe são o peixe. Não há nada a não ser peixe. Compreende? Você não pode encontrar a natureza de Buda por vivissecção [dissecação]. A realidade não pode ser apreendida pela mente pensante ou senciente. Observar sua postura, observar sua respiração, momento após momento, é a verdadeira natureza. Além deste ponto não há segredo algum.

Nós, budistas, não concebemos que tudo seja apenas matéria, ou apenas mente, ou produto de nossa mente ou que a mente seja atributo do ser. O que estamos sempre falando é que mente e corpo, mente e matéria são sempre uma coisa só. Mas se você não ouve com atenção soa como se estivéssemos falando sobre algum atributo do ser, ou acerca de algo "material" ou "espiritual". Esta, talvez, seja uma versão possível. Mas, na realidade, o que estamos indicando é a mente que está sempre ao lado, que é a verdadeira mente. A experiência de iluminação é descobrir, compreender, perceber esta mente que está sempre conosco e que não podemos ver. Compreendem? Se tentar alcançar a iluminação do mesmo modo como vê uma estrela brilhante no céu, será bonito e talvez pense: "Ah, isto é iluminação". Mas não é. Tal compreensão é literalmente uma heresia. Mesmo que não o saiba, neste tipo de compreensão você está abrigando a idéia de apenas matéria. Muitas das experiências de iluminação são assim: algo apenas material, algum objeto da mente, como se através de uma boa prática você tivesse encontrado aquela estrela brilhante. Esta é a concepção de sujeito e objeto, e não é a maneira certa de se buscar a iluminação.

(...)

Seja difícil ou fácil de praticar, difícil ou fácil de entender, a única coisa a fazer é praticar. Ser leigo ou ser monge não vem ao caso. O que importa é descobrir-se como alguém que está realizando algo, que está reassumindo seu verdadeiro ser através da prática, reassumindo esse si próprio que está sempre com todas as coisas, com o Buda, que está completamente sustentado por tudo. Neste exato momento! Você pode dizer que isto é impossível. Mas é possível! Ainda que por um instante, você pode fazê-lo! Este instante é possível! E é este o instante! Se é possível neste instante, é possível sempre. Portanto, se você tem confiança, essa é a sua experiência de iluminação. Se tiver essa confiança firme em sua mente grande, já é um budista em seu verdadeiro sentido, mesmo que não alcance a iluminação.

Eis a razão pela qual o mestre Dogen disse: "Não esperem que todos os que praticam zazen alcancem a iluminação a respeito desta mente que está sempre conosco". Ele quis dizer que se você acha que a mente grande está em algum lugar fora de você, separada de sua prática, está enganado. A mente grande está sempre conosco. Por isso repito as mesmas coisas quando percebo que não entenderam. Zen não é só para aquele que pode cruzar as pernas ou tem grande habilidade espiritual. Todos têm natureza de Buda. Cada um de nós deve encontrar uma forma de realizar sua verdadeira natureza. O propósito da prática é termos uma experiência direta da natureza de Buda, comum a todos. Tudo quanto você fizer deve ser uma experiência direta da natureza de Buda. Natureza de Buda significa estar consciente da natureza de Buda. Seus esforços devem ser dirigidos para a salvação de todos os seres vivos.

fonte: "Mente zen, mente de principiante", Ed. Palas Athena, 9ª ed., 2017